living without scars is not living at all

Todas aquelas coisas inexplicáveis que já tinham acontecido com ela se tornavam motivo de agradecimento. Nascer era uma delas. Afinal, se não tivesse sido parida, nada disso teria ocorrido. Além delas, a escola primária na qual havia sido matriculada, o primeiro livro lido, o primeiro vídeo rodado, com uma câmera de péssima qualidade. Ter passado nos vestibulares variados e de diversos cursos. Ter escolhido um deles. Aquele. Ter sido inserida na cinematografia em seis meses, e, nos outros seis, ter viajado para uma produção em outra cidade, às cinco horas da manhã no inverno congelante. Viajar só para o outro lado do mundo e crescer espiritualmente, quebrar-se emocionalmente. Começar a namorar jovem demais. Encontrar romance nos filmes e livros preferidos, já que não o localizava na vida real. Ser atraiçoada, sentir-se fria, coração vazio, mas ao mesmo tempo livre, leve, solto. Descobrir o significado de ser sozinha. Todos os machucados, da alma, do corpo, dos olhos, que viam tantas coisas feias acontecendo. Feridas nos ouvidos, que ouviam tantas mentiras. Viver sem cicatrizes era uma péssima ideia.
Todas essas coisas eram motivo de agradecimento. Pois eram como que um caminho para chegar até onde estava no presente momento. O caminho dos estigmas, impressões marcadas a lembranças, a levavam ao melhor momento, que ninguém, a não ser ela, poderia entender. Naquela situação onde se sentia perfeitamente bem, completamente feliz. Acompanhada, amada, sentida, tocada, beijada, cheirada, apertada, acariciada. Viva.

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