Dia Triste

Nunca passei fome. Sei que deve ser muito dolorido, deve doer até mesmo o coração, afinal, comer é tão bom que sempre me deixa feliz e de bem com a vida. Hoje passei por uma experiência terrível envolvendo a fome. Daquelas que me fez repensar se eu seria capaz de fazer qualquer tipo de trabalho voluntário em países que passam por esse tipo de problema. E nem foi com uma pessoa. Foi com um animal.

Estava indo trabalhar, um pouco atrasada, mas com expectativas positivas sobre os eventos que eu havia criado e estavam para ser realizados. Andando pela rua suja e fedorenta que dá no metrô, enxerguei um cão enorme, preto, da raça Mastiff misturada com alguma outra, talvez um vira-lata mesmo. Ele era magnífico, com aqueles olhos caídos, meio melancólicos e os beiços balançando. Porém estava tão magro que eu podia contar quantas costelas ele tinha e seu grande focinho cheirava tudo o que via pela frente.

Aquilo me doeu demais. Estava quase na catraca para entrar na estação quando decidi voltar para alimentar o pobre animal. Passei por ele novamente, vendo-o revirar o lixo e comer um saco plástico. Meus olhos se encheram de lágrimas, tanta tristeza me encontrou. Comprei correndo um salgado em uma lanchonete próxima, com medo que o cão fugisse para algum lugar, ainda que ele estivesse tão fraco que provavelmente não conseguiria ir muito longe. Quando saí do local com o salgado quente nas mãos, encontrei-o ainda no lixo e o chamei. Ele me olhou, e quando coloquei a comida no chão, me mirou com as orelhas atentas, virando a cabeça daquela forma que os cachorros sempre fazem quando querem entender alguma coisa.

Era claro que ele não entendia o porquê de alguém estar entregando comida, assim, de graça. Inclusive, nem acreditava que aquilo era real. Devia estar comendo sacolas e papéis havia algum tempo, desnutrido, sentindo dores, cansaço. Tudo o que eu queria era abraçar aquele cão, fazer muito carinho e entregar tanta comida e água quanto ele aguentasse sorver. Mas saí dali, fui trabalhar. Chorando, peguei o metrô e o ônibus. Chorando cheguei ao trabalho e conversei com a minha mãe pelo telefone. E descobri que o mundo precisa realmente de mim. E de você. E de todos nós.

Imagem

Foto: Martin Usborne

 

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