Crônicas no Ônibus – Marilda

Elas estavam lá, bem belas. Saindo pelas sandálias e tapando os dedos como pequenos telhadinhos cobrem uma casa. Uma casa para a sujeira e as bactérias, tão amarelas eram aquelas unhas. Pouco acima, no dedo, um tufo de pelos encaracolados, já meio brancos, era o jardim de grama mal cortada no latifúndio do pé. Nada era bem cortado, por sinal. E tudo saía pelas sandálias tipo “papete” pretas daquele senhor narigudo. Era um horror, dedos mal assombrados que quase falavam e andavam sozinhos, com o perdão da redundância.
O homem olhou para as unhas do pé, lembrou de algo e pegou o celular, as mãos com unhas cortadas – ou roídas – com perfeição. Discou números que bipavam ao teclar e esperou a chamada ser atendida, pacientemente.
“Alô, Marilda, meu amor!”
Alguém respondeu rispidamente. O homem continuou:
“Não seja assim, eu lhe liguei ontem sim, meu doce! Você devia estar dormindo! Enfim, vou dar uma passadinha aí para dar uns beijos nesse seu pescoço cheiroso e para cortar as unhas, sim?”
Alguém gritou no outro lado da linha.
“Ah, Marildinha, ninguém corta as minhas unhas melhor do que você. Esses cascos te pertencem, minha gorduchinha! Passo aí lá pelas oito. Um beijo.”

Ele desligou o telefone sorrindo.
Alguns risos abafados foram ouvidos no ônibus. E o homem foi embora, apaixonado e lembrando da sensação deliciosa de ter as unhas cortadas pela mulher que amava.

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