Crônicas no Ônibus: O falador

Novamente consegui, esbaforida, um assento no ônibus no final daquele dia cansativo de trabalho. A vida estava bonita para mim naquele banco confortável e o sol de final de tarde me aquecia da janela enquanto o ar condicionado polar tentava me congelar. Mas infelizmente, a paz sempre é quebrada dentro de um ônibus lotado. Em uma determinada parada um rapaz e duas meninas entraram. Ele, carregando uma mala e elas com câmeras e outros apetrechos. Todos meio alternativos, mas bem jovens. Em alguns minutos, o menino as chamou para que devolvessem a câmera, aos gritos:
“Vem aqui, me devolve minha câmera, não lembra que eu estou indo para o Rio?”

Até aí tudo bem. Ele vai para o Rio. Que legal, boa viagem e passe bem! O problema começou com a continuação da conversa, sempre em um tom elevado e olhares enviesados para analisar o que as pessoas estavam fazendo ao redor:

“O que quer de presente do Rio? Posso te trazer uma caneca do Starbucks ou uma canga, você conhece Starbucks? Gosta de canga? Vai ser presente do Rio, então pode escolher. Starbucks não tem aqui, só tem no Rio. E a canga posso trazer aquelas que tem imagem do Cristo, lá do Rio.”

Uma das meninas riu encabulada e ficou um pouco vermelha. Ele continuou:

“Lá no Rio eu vou dançar na Lapa. E vou comprar uma guitarra. Minha banda está concorrendo para tocar no Loolapalooza. Você tem que votar para eu tocar no Loola. Você tem muitos amigos? Pede pra eles votarem! Ah, mas minha banda tocando no Rio vai ser épico. Eu tenho certeza que nós vamos ficar famosos no Rio. Tenho certeza. E vai ser muito irado!”
A conversa já estava ficando chata com e eu já revirava os olhos, tamanho o sonho do rapaz. Ficar famoso, veja só. No Rio, ainda por cima! Um rapaz tatuado, de cabelos compridos, estiloso, mas que fala como um colono do interior do Rio. Rio de Janeiro? Não. Rio Grande do Sul, mesmo. Sem preconceito, mas normalmente “quem muito fala, pouco faz”. Sonhos. Eles existem e podem quebrar a gente ao meio. Mas a gente sempre se recupera.

Quando eu parei de me importar com a viagem pro Rio, fosse Rio Pardo ou Rio de Janeiro, as meninas desceram do ônibus e o guri parou de falar sobre toda aquela aventura que é a marca da juventude.

Para-brincar-com-ascrianças2

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