O galanteador

Um velho sentava no banco em frente ao meu no ônibus. Tinha aqueles dedos calejados e o cabelo ralo, com oleosidade de quem não toma banho há dias. Entretia-se com seu celular, mandando e recebendo mensagens com dificuldade, mas muita bala na agulha.
Entra tantas palavras, recebeu uma foto, de uma mulher na melhor idade, usando sutiã vermelho e sentada junto à uma mesa com toalha de crochê. Um nude de alguma senhora com aspecto de boa cozinheira.
Ele escreveu, com dificuldade: “gostosa, imagina nós dois juntos”.
Fechou a mensagem, abriu seus contatos e uma lista de senhoras havia enviado mensagens, a tela era tomada por pontinhos vermelhos indicando novidades.
Clicou em uma foto esperando por outra imagem suculenta, mas ao contrário disso, foi surpreendido com uma foto de Jesus Cristo em sofrimento. Fechou a tela imediatamente.

E voltou a falar com todas as outras que lhe queriam seduzir.

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Desenho: Vini Medellin

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Turista da vida

De vez em quando o pensamento corre mais rápido do que consigo alcançar. Uma maratona de muitos quilômetros, puxando considerações em sequência, que vão evoluindo e crescendo. Ganhando força. Aquela coisa de quando a mente fica alguns segundos ociosa. Anda tão rápido que, quando cansa pelo excesso de informação, para e congela em uma frase ou conceito. Como se desse um tempo para respirar.

A parada é agradável. Eu seguro o pensamento pelo pé, antes que se afaste novamente, sendo levado a uma nova corrida entre ideias e outros momentos que não consigo captar. Uma frase se forma diante de mim, essência deste único pensamento que não conseguiu escapar: “Serei uma eterna turista”.

Pelos meus devaneios, pensei no significado de “turista” neste contexto. Aquele que sempre busca novos lugares para conhecer. Culturas novas, momentos novos, clientes novos, amigos novos. Será que, mesmo criando raízes, não somos todos turistas? Cuidadosa, continuo segurando o pensamento, agora pela mão. Não quero que ele escape.

Cada dia é diferente. Tudo muda, ainda que não pareça. Não se conhece nada como a palma da mão, nem mesmo a própria palma da mão. Porque a vida não é uma constância. Quero ser turista pela minha pequena eternidade, pois assim consigo enxergar, em cada dia de vida, um novo mundo para conhecer. Não é esta a liberdade que todos queremos? Abrir os olhos diariamente e saber que nada será igual a ontem? Liberdade.

Quando percebi, libertei o pensamento e ele voltou a se mover, desta vez, caminhando e apreciando a vista. Tal qual um verdadeiro turista.

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O que o futuro reserva?

 

Ah, como seria bom ter uma bola de cristal! Nos últimos dias tenho pensado muito sobre o que planejei para este ano. Minhas ideias, no início do ano, tomaram rumos diferentes agora, quase seis meses depois. Não alterei nenhum dos meus objetivos. Mas o universo está fazendo com que eles atravessem caminhos diferentes daqueles que eu imaginava. Uns mais tortuosos. Outros muito mais fáceis, óbvios. Você já passou por isso?

É bem estranho! Andei pensando muito sobre o que pretendo. Sobre escrever este texto. Sobre escrever outros livros! Será que mostro o que tenho? Será que o medo me paralisou de exibir o que demorei tanto para criar?

Às vezes é medo mesmo. Mas tem vezes que o coração diz que não é o momento certo. Que é melhor ir pelo outro caminho. A bifurcação à frente fica nebulosa, não consigo pensar direito sobre o que fazer primeiro. Tenho tanto para mostrar!

Você também tem. Com certeza. Me mostra?

Estes são só pequenos parágrafos sobre aquela tediosa situação de se ver em cima do muro.

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Arte por: CatherineLazarOdell

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Estava tão preocupada. Com a vida, com o que pensavam sobre ela. Com os objetivos que queria atingir, as viagens que queria fazer, os lugares que precisava conhecer. Aquilo era ansiedade, proveniente dos outros, das expectativas de boa menina. Também das suas próprias, tentando sempre ser melhor, parecer melhor, fazer o melhor.

Mas que preguiça.

Deitou a cabeça no travesseiro e dormiu como há tempos não fazia. O colchão era como um abraço. O edredom estava fresco e perfumado, como se sonhasse com campos de lavanda. O pijama acariciava o corpo com seu tecido macio e suave. E os olhos fechados só viam o escuro de uma noite calma.

Acordou pela manhã com a tranquilidade na mente. Pegou o livro que há tempos esperava para ser explorado. Páginas e mais páginas de um mundo novo. Em segundos, não havia mais planos, nem expectativas. Já estava viajando e conhecendo lugares novos, pessoas diferentes, umas más e perversas, outras boas e cheias de vida. Os dedos folheavam com paixão aquelas páginas finamente escritas por alguém admirável. Era respeito o que sentia. Era amor pelas palavras.

Só os livros aliviam vidas em panelas de pressão.

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Helga McLeod

Senhora

Esperava para atravessar a rua uma senhora. Pequena e meio encurvada, de camiseta listrada, as roupinhas soltas e cabelo pintado de um tom louro avermelhado, quase cor acaju. Parada a trinta metros de distância da faixa de segurança, ela aguardava os carros diminuírem sua velocidade. Era como um desafio. Atravessar em meio ao trânsito intenso e nervoso, ao invés de esperar pelo sinal para pedestres.

Será que era pressa? Talvez não. Só aquela vontade de desafiar a vida para se sentir viva.

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sinta a chuva

Ela olhou para fora do supermercado e percebeu que o tempo havia virado. Uma chuvarada caía na escuridão daquele final de tarde. Apressou as compras, passando no corredor de limpeza e agarrou um cabo de vassoura, que estava precisando há dias. Correu então no setor de objetos para a casa e escolheu o guarda-chuvas mais barato que havia por lá. Ele era azul marinho, coberto por estrelas brancas.

Passou pelo caixa do supermercado, pagou suas compras com pressa e parou à porta de saída, onde algumas pessoas esperavam a chuva forte passar. Outras, mais corajosas, seguiam em frente, molhando os pés e as pernas, naquela fresca noite de verão. Pensou por um momento e decidiu enfrentar a água, que vinha de todos os lados e a molhava por inteiro.

Quando o sinal para passagem de pedestres fechou, ficou parada ao lado de uma mulher, que estava na mesma situação. Completamente encharcada. As duas se olharam por alguns instantes e começaram a rir.

“Já que não somos feitas de açúcar!” – Gritou a mulher em meio ao barulho da chuva.

Ela sorriu e concordou. Ainda que a chuva entrasse em sua roupa, molhasse sua bolsa e encharcasse seus pés nas sandálias escorregadias, só pensava na sensação refrescante das gotas em seu corpo, como se a própria natureza a estivesse acariciando com água limpa e cristalina.

Se despediu da companheira de chuvas, tomando um caminho diferente. Continuou caminhando com o sorriso no rosto e um guarda-chuvas de estrelas que não protegia nada. Só embelezava ainda mais aquele momento de pura poesia e satisfação com a vida.

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Não engula o chiclete

Esse era o título do livro que vi na vitrine de um sebo ensebado no centro de Porto Alegre. As letras na cor rosa-chiclete tinham aspecto melecado, como uma goma de mascar grudada na capa de papel. Fiquei pensando como, entre dezenas de livros, aquele me chamou a atenção.
A partir daí, milhares de pensamentos se seguiram. Me deparei com o fato de perceber alguns detalhes pitorescos em cada momento ou local em que eu esteja. Detalhes importantes que aguçam os sentidos e o olhar. Aquele trevo de quatro folhas verde pintado na guarnição das janelas de um prédio secular do centro histórico. A falha na sobrancelha do homenzinho sem braços que vaga triste em frente a um estacionamento na rua General Câmara. A letra faltante na palavra “açores” da fachada de um prédio. São tantos detalhes, todos tão desiportantes. Ou não.

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espelho

“Eu te amo. Não te preocupa que vou cuidar de ti.”

Ouvi essas palavras de uma pessoa que nunca imaginei ouvir. Em um momento que nunca imaginei que chegaria. Uma situação que nunca imaginei ter de passar. A pessoa estava lá, me olhando com olhos cheios de lágrimas, expressando toda a compaixão, carinho e o amor mais verdadeiro do mundo. Empatia.

Esse alguém que preciso mais do que qualquer outra pessoa. Olhei no fundo de seus olhos. Eram os meus olhos. Contra o espelho, me enxerguei e percebi que essa seria a minha história de amor. A estrada é comprida. É preciso apaixonar-se por si mesmo. Nem sempre é fácil. Preciso me fazer carinho, dizer a mim mesma que tudo vai dar certo, que eu sou incrível. Colocar minhas músicas alegres favoritas e dançar sem me importar com quem está olhando. Trazer a criança para a pele. Desenhar passarinhos e montar barquinhos de papel. Meu reino de amoras, amadas, amandas. Construído com as pedras (e algumas montanhas pedregosas) que encontrar pelo caminho.

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Ilustra: Andrea De Santis

 

luz no temporal

A chuva caía em gotas largas, como lágrimas que a face da noite derruba pela perda de um certo alguém. Eu sabia. Pois aquele rosto noturno era espelho. Chorava e chorava a triste noite. Mas, em meio a tanta água dolorida, cantava solo um passarinho. Molhado pelas gotículas melancólicas, seu pio se transformava em canção de ninar e acalmava a bela escuridão da noite até esta cair no sono, exausta, mas com o sentimento intrínseco de que o futuro coisas boas reserva.

The Rain Room Is Unveiled At The Curve Inside The Barbican Centre

(Photo by Oli Scarff/Getty Images)

Future

Às vezes, tenho saudade do passado dos outros. Das lembranças vividas por aquela senhora que, em pleno sol de meio dia, caminha no clube em sua meia-calça cinza e saia na altura dos joelhos. Os cabelos bem arrumados com o pente, os laços no sapatinho de salto baixo. Em breve, “coisa velha” não vai mais ser as lembranças dos anos 50, mas sim as dos anos 70, 80, 90. Ah, os anos noventa. Percebo agora que tenho saudades, especialmente, do passado que ainda está por vir.

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